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De Nelson Botter Junior.
Segunda-feira eu estava em casa, sentado no sofá, lendo um livro quando
meu coração começou a bater forte e descompassado. Na hora percebi que
se tratava de uma arritmia cardíaca. Será que é grave? Devo correr para
o hospital? Isso passa rápido ou tem que tomar remédio? A resposta para
todas as minhas auto-perguntas era "sei lá". Corri para a
Internet à procura de informações. A arritmia continuava, uma batedeira
no coração. Duas ou três homepages depois eu desisti e disse para minha
mulher: "que tal passarmos uma noite super romântica no
pronto-socorro?"
Chegando lá, mal me deixaram preencher a ficha do convênio médico. No
que eu falei a palavra "arritmia" uma enfermeira já foi me
buscar, no melhor estilo 5 estrelas, medindo minha pressão e pulsação
enquanto ainda nos dirigíamos à uma salinha de pronto-atendimento. Me
senti cliente VIP. "Freqüência cardíaca variando de 160 a 180.
Devemos colocá-lo numa maca?", ela perguntou para uma outra
enfermeira. A resposta foi de gelar a alma: "DEVE". Sabe um
"deve" que no inglês é must e não should? Pois
é, desses... Então, dois médicos já vieram prontamente. Mas não é só
tomar uma pílula qualquer e voltar para casa?
"Você já teve isso antes? Bebe? Fuma? Usa drogas? Viagra? Toma
algum remédio continuado?". Meu Deus, estou tão broxado assim pra
acharem que tomei Viagra??? Respondi a verdade: não pra tudo. É isso aí,
sou um caretão beleza. "Sua vida é estressante?", "E
existe alguém nesse mundo que não tenha uma vida estressante,
doutor?". "Você estava fazendo atividade física no momento da
arritmia?", "Não, eu estava lendo um livro... e nem era tão
ruim assim pra me deixar estressado por ter gasto 35 paus nele. Aliás,
livro no Brasil é meio caro e escritor não ganha quase nada disso. Não
é só no meu coração que tem alguma coisa errada, né doutor?".
Tentaram reverter a arritmia sem sucesso com um remédio na veia. Eles
chamam isso de ataque. Me senti no River Raid do Atari (OK, estou velho
mesmo) quando a droga agiu, era um ataque aéreo, que me fez ver um túnel
com uma luz distante. Como não passou o tal filme da minha vida, logo
imaginei que ainda não era hora de morrer. "É, não reverteu...
Olha, está tudo bem, Nelson, mas você precisa ir para a UTI". Eu
nunca tinha ido a um hospital como paciente, não sabia nem o que era ser
internado em quarto. Isso é o que eu chamo de estréia em grande estilo.
"Bem, eu tinha outros planos para hoje a noite, doutor, mas já que
você insiste..."
Fiquei lá, passando uma madrugada cheia de pim, pim, pim, que vinha do
monitoramento cardíaco. Até desenvolvi uma contagem para me distrair: 1,
2, 3, pim, 5, 6, 7, pim, 8... ah, errei. Fora isso, tinha o incômodo de
ficar recebendo remédio na veia. Para encurtar a madrugada e a história
toda, dormir em UTI é pior que dormir em avião. Tudo atrapalha e você
fica pescando, pescando, e quando vai cair no sono acorda por algum
motivo. Resumindo: uma merda.
Na manhã seguinte, depois de umas duas horas de sono mal dormidas,
acordei e a freqüência continuava alta. "Se não reverter com o remédio
a gente te dá um choquinho e fica tudo bem", "Um choquinho,
doutor?", "É, coisa leve. Você toma um negócio pra te apagar
e damos o choque. Na sua idade as chances de sucesso são altas",
"Choquinho, daqueles com desfibrilador? Igual do programa Plantão Médico?
Na minha idade as chances são altas?". A coisa estava ficando cada
vez mais estressante, o mesmo stress que produz a arritmia, ou
seja, círculo vicioso!
Então, lá pelas duas e meia da tarde chegou a hora da visita. Minha freqüência
estava beirando os 180. Nada de reverter, tudo na mesma. Ver a família
nessas horas é tudo de bom. Se um dia algum parente seu estiver num
hospital, visite-o, é muito importante. Mas também não fique muito
tempo, pois começa a encher o saco do paciente. Bem, coincidência ou não,
minha freqüência começou a se normalizar. Quando minha mulher apareceu,
a última da fila, pois as visitas eram individuais, como num conto de
fadas nos beijamos e meu coração destrambelhado ficou
"bunitinhu", sossegado e compassado. Juro! Então, quando as
visitas terminaram, descobri que aquele quarteto de Liverpool estava mais
do que certo quando cantava que "all you need is love".
Pois é, pode parecer piegas, pense o que quiser, mas naquele momento tive
certeza que o amor move montanhas, nos deixa cegos, nos faz voar nas
alturas e cura arritmias.
Apesar dessa crônica não ser um episódio do antigo desenho He-Man
(estou anos 80 total hoje - deve ser o remédio), a historinha de hoje nos
deixou uma lição: ame, mas ame MESMO. Deixe o sentimento de gostar das
pessoas te possuir e acredite que isso pode contagiar aos outros. O vírus
de "ser do bem". Não se trata de uma crônica auto-ajuda ou um
discurso religioso, é apenas uma constatação. Ah, e até onde sei não
fiquei maluco. É sério, dê importância às pessoas que convivem com
você, parentes, amigos, colegas, vizinhos, conhecidos. Muita gente acha
que não pode perder 5 minutinhos dando atenção às pessoas. Que
bobagem! Na verdade não estão perdendo minutos na "correria"
do dia-a-dia e sim GANHANDO um sorriso do outro lado. Telefone, mande
e-mails, ouça a quem precisa desabafar, brinque com seus filhos, sei lá
o que mais. A vida muda em segundos, camarada. Num minuto você está no
sofá, no outro pode estar numa cama na UTI. Vai por mim, depois dessa
experiência que passei, eu recomendo amar e se deixar ser amado. Isso faz
a diferença. Portanto ame, enquanto ainda dá tempo...
Nelson Botter Junior agradece a todos que mandaram mensagens e
estiveram presentes nesse momento. Ah, e também à toda equipe do Oswaldo
Cruz em SP. Blônicas -
12h29
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