21/06/2005 - O retorno de Botter

De Nelson Botter Junior.

Segunda-feira eu estava em casa, sentado no sofá, lendo um livro quando meu coração começou a bater forte e descompassado. Na hora percebi que se tratava de uma arritmia cardíaca. Será que é grave? Devo correr para o hospital? Isso passa rápido ou tem que tomar remédio? A resposta para todas as minhas auto-perguntas era "sei lá". Corri para a Internet à procura de informações. A arritmia continuava, uma batedeira no coração. Duas ou três homepages depois eu desisti e disse para minha mulher: "que tal passarmos uma noite super romântica no pronto-socorro?"

Chegando lá, mal me deixaram preencher a ficha do convênio médico. No que eu falei a palavra "arritmia" uma enfermeira já foi me buscar, no melhor estilo 5 estrelas, medindo minha pressão e pulsação enquanto ainda nos dirigíamos à uma salinha de pronto-atendimento. Me senti cliente VIP. "Freqüência cardíaca variando de 160 a 180. Devemos colocá-lo numa maca?", ela perguntou para uma outra enfermeira. A resposta foi de gelar a alma: "DEVE". Sabe um "deve" que no inglês é must e não should? Pois é, desses... Então, dois médicos já vieram prontamente. Mas não é só tomar uma pílula qualquer e voltar para casa?

"Você já teve isso antes? Bebe? Fuma? Usa drogas? Viagra? Toma algum remédio continuado?". Meu Deus, estou tão broxado assim pra acharem que tomei Viagra??? Respondi a verdade: não pra tudo. É isso aí, sou um caretão beleza. "Sua vida é estressante?", "E existe alguém nesse mundo que não tenha uma vida estressante, doutor?". "Você estava fazendo atividade física no momento da arritmia?", "Não, eu estava lendo um livro... e nem era tão ruim assim pra me deixar estressado por ter gasto 35 paus nele. Aliás, livro no Brasil é meio caro e escritor não ganha quase nada disso. Não é só no meu coração que tem alguma coisa errada, né doutor?".

Tentaram reverter a arritmia sem sucesso com um remédio na veia. Eles chamam isso de ataque. Me senti no River Raid do Atari (OK, estou velho mesmo) quando a droga agiu, era um ataque aéreo, que me fez ver um túnel com uma luz distante. Como não passou o tal filme da minha vida, logo imaginei que ainda não era hora de morrer. "É, não reverteu... Olha, está tudo bem, Nelson, mas você precisa ir para a UTI". Eu nunca tinha ido a um hospital como paciente, não sabia nem o que era ser internado em quarto. Isso é o que eu chamo de estréia em grande estilo. "Bem, eu tinha outros planos para hoje a noite, doutor, mas já que você insiste..."

Fiquei lá, passando uma madrugada cheia de pim, pim, pim, que vinha do monitoramento cardíaco. Até desenvolvi uma contagem para me distrair: 1, 2, 3, pim, 5, 6, 7, pim, 8... ah, errei. Fora isso, tinha o incômodo de ficar recebendo remédio na veia. Para encurtar a madrugada e a história toda, dormir em UTI é pior que dormir em avião. Tudo atrapalha e você fica pescando, pescando, e quando vai cair no sono acorda por algum motivo. Resumindo: uma merda.

Na manhã seguinte, depois de umas duas horas de sono mal dormidas, acordei e a freqüência continuava alta. "Se não reverter com o remédio a gente te dá um choquinho e fica tudo bem", "Um choquinho, doutor?", "É, coisa leve. Você toma um negócio pra te apagar e damos o choque. Na sua idade as chances de sucesso são altas", "Choquinho, daqueles com desfibrilador? Igual do programa Plantão Médico? Na minha idade as chances são altas?". A coisa estava ficando cada vez mais estressante, o mesmo stress que produz a arritmia, ou seja, círculo vicioso!

Então, lá pelas duas e meia da tarde chegou a hora da visita. Minha freqüência estava beirando os 180. Nada de reverter, tudo na mesma. Ver a família nessas horas é tudo de bom. Se um dia algum parente seu estiver num hospital, visite-o, é muito importante. Mas também não fique muito tempo, pois começa a encher o saco do paciente. Bem, coincidência ou não, minha freqüência começou a se normalizar. Quando minha mulher apareceu, a última da fila, pois as visitas eram individuais, como num conto de fadas nos beijamos e meu coração destrambelhado ficou "bunitinhu", sossegado e compassado. Juro! Então, quando as visitas terminaram, descobri que aquele quarteto de Liverpool estava mais do que certo quando cantava que "all you need is love". Pois é, pode parecer piegas, pense o que quiser, mas naquele momento tive certeza que o amor move montanhas, nos deixa cegos, nos faz voar nas alturas e cura arritmias.

Apesar dessa crônica não ser um episódio do antigo desenho He-Man (estou anos 80 total hoje - deve ser o remédio), a historinha de hoje nos deixou uma lição: ame, mas ame MESMO. Deixe o sentimento de gostar das pessoas te possuir e acredite que isso pode contagiar aos outros. O vírus de "ser do bem". Não se trata de uma crônica auto-ajuda ou um discurso religioso, é apenas uma constatação. Ah, e até onde sei não fiquei maluco. É sério, dê importância às pessoas que convivem com você, parentes, amigos, colegas, vizinhos, conhecidos. Muita gente acha que não pode perder 5 minutinhos dando atenção às pessoas. Que bobagem! Na verdade não estão perdendo minutos na "correria" do dia-a-dia e sim GANHANDO um sorriso do outro lado. Telefone, mande e-mails, ouça a quem precisa desabafar, brinque com seus filhos, sei lá o que mais. A vida muda em segundos, camarada. Num minuto você está no sofá, no outro pode estar numa cama na UTI. Vai por mim, depois dessa experiência que passei, eu recomendo amar e se deixar ser amado. Isso faz a diferença. Portanto ame, enquanto ainda dá tempo...

Nelson Botter Junior agradece a todos que mandaram mensagens e estiveram presentes nesse momento. Ah, e também à toda equipe do Oswaldo Cruz em SP. Blônicas - 12h29

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